O governo brasileiro classificou como uma "época estranha" o atual momento das relações diplomáticas com a Argentina. A declaração foi feita pelo encarregado de negócios da Embaixada do Brasil em Buenos Aires, Eduardo Uziel, durante uma cerimônia pelo Dia da Independência do Brasil, realizada na segunda-feira (7), no Teatro Colón.
A fala foi alinhada com o embaixador brasileiro Julio Bitelli, que está em Brasília após ser chamado para consultas, e com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. Embora não tenha citado diretamente o presidente argentino, Javier Milei, Uziel fez referências que foram interpretadas como críticas à postura do governo argentino.
Ao lembrar um discurso feito por Bitelli no mesmo evento no ano anterior, o diplomata retomou uma frase do escritor argentino Jorge Luis Borges sobre viver em uma "época estranha". Para Uziel, a situação atual entre os dois países tornou o cenário ainda mais complicado.
Relação acima das diferenças
Durante o discurso, Uziel defendeu que a parceria entre Brasil e Argentina seja preservada mesmo diante das divergências entre os governos.
O representante brasileiro afirmou que os dois países construíram uma relação estratégica e de benefícios mútuos e que essa parceria deve permanecer acima de conflitos e diferenças momentâneas.
Ele também destacou que a amizade entre brasileiros e argentinos não depende dos governos de ocasião. Em outro trecho, falou sobre a necessidade de superar "mesquinharia" e "miopia", termos que foram associados à postura de Milei em relação ao Brasil.
Crise diplomática
A tensão entre os dois governos aumentou em julho, quando Milei fez ataques públicos contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante um evento político em São Paulo. Na ocasião, o argentino também criticou o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes.
Após novos ataques de Milei, o governo brasileiro decidiu reduzir o nível da representação diplomática em Buenos Aires. Desde agosto, a embaixada brasileira passou a ser comandada por um encarregado de negócios, enquanto Bitelli permanece em Brasília.
A Argentina adotou medida semelhante em relação à representação brasileira em seu território.
Brasil reforça posição sobre as Malvinas
No fim do discurso, Eduardo Uziel também mencionou a posição histórica do Brasil em relação às Ilhas Malvinas. O país mantém, desde 1833, apoio à reivindicação argentina sobre a soberania do arquipélago, atualmente administrado pelo Reino Unido.
A referência ocorreu em um momento de mudanças na política externa de Milei sobre o tema e serviu para reforçar a defesa brasileira de uma política de Estado baseada em posições mantidas independentemente das circunstâncias políticas.
Evento teve ausência do governo argentino
A cerimônia no Teatro Colón também evidenciou o distanciamento entre os dois governos. Apesar dos convites, nenhum integrante do governo de Javier Milei participou do evento.
Em anos anteriores, autoridades argentinas costumavam comparecer às celebrações da Independência brasileira. Para representantes brasileiros, a presença de integrantes do governo poderia ter servido como um primeiro passo para uma reaproximação diplomática.
A expectativa agora é que novos movimentos entre os países ocorram após as eleições argentinas, dependendo do resultado das urnas.
portal SGC