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São Paulo — O Tren de Aragua, maior grupo criminoso da Venezuela, se tornou um problema para as autoridades norte-americanas. A facção é conhecida por crimes violentos e por, como destacado pelo atual presidente Donald Trump, colocar a população estadunidense em risco.
Criada em 2012 na penitenciária venezuelana de Torocón, o Tren de Aragua tem como líder máximo Hector Guerrero Flores, o Niño Guerrero, foragido desde 2018 após escapar do local por túneis subterrâneos.
Em poucos anos, a facção se tornaria o maior grupo criminoso do país latino e, também, parceiro de negócios do Primeiro Comando da Capital (PCC). A expansão dos venezuelanos foi meteórica, ao ponto de serem classificados por Trump como um grupo "narcoterrorista".
Nos Estados Unidos, o interesse dos membros da facção é a facilidade na compra de armamento, já que o país é um dos maiores fornecedores de armas de fogo do mundo.
Lei dos Inimigos Estrangeiros (Alien Enemies Act)
Por meio de um decreto de 15 de março, Trump classificou os membros do Tren de Aragua como integrantes de uma organização responsável por assassinatos, extorsões, sequestros, tráfico humano, de armas e de drogas — como consta no site da Casa Branca.
Para isso, ele colocou em prática uma lei de 1798, usada somente em outras três ocasiões — em 1812 e nas duas guerras mundiais — fazendo com que estes tipos de criminosos sejam considerados "inimigos de guerra". É a primeira vez na história em que a lei é aplicada sem que uma guerra de fato esteja em curso com os Estados Unidos.
A medida de Trump foi contestada pelo American Civil Liberties Union. A organização aponta o perigo de generalizar imigrantes venezuelanos, sem provas concretas, como membros do Tren de Aragua.
A lei de Inimigos Estrangeiros de 1798 foi aplicada pelo presidente para acelerar deportações, feitas de forma arbitrária, segundo familiares de venezuelanos retirados do país a força e sem chance de se defender.
Parceria com o PCC
No ano de 2012, o Primeiro Comando da Capital (PCC) promoveu o assassinato de ao menos 106 policiais militares no estado de São Paulo como forma de resposta, por meio da violência, às mortes de criminosos provocadas por agentes públicos. A facção também já crescia financeiramente, a partir do modelo logístico e hierárquico imposto por Marco Willian Herbas Camacho, o Marcola, com as chamadas "sintonias".
Pesquisador da Universidade de Coimbra e conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Roberto Uchôa afirmou ao Metrópoles que a aliança entre o PCC e o Tren de Aragua reflete a complexa dinâmica entre as organizações criminosas — nesse caso fortalecida pela proximidade de Roraima e Venezuela.
O especialista destacou que o Tren de Aragua prosperou em meio ao contexto de caos político e econômico, que resultou na imigração de centenas de milhares de venezuelanos para o Brasil e outros países sul-americanos.
"A organização criminosa prospetou com o colapso da Venezuela, das instituições estatais, e com o crescimento dos mercados ilícitos, tanto do tráfico de drogas, armas e prostituição [que decorre no tráfico humano]."
O Tren de Aragua, assim como o PCC, expandiu seus braços para fora das grades, controlando o entorno das prisões e, um pouco depois, migrando para outros países como Brasil, Colômbia e Peru — os dois últimos produtores de cocaína.
Especializado em controlar rotas para o tráfico por meio de ações de extrema violência, o Tren de Aragua viu vantagens em se alinhar com o PCC, que conta com experiência na logística de compra, transporte e comercialização de cocaína — principalmente para a Europa e África, que rende bilhões de dólares para a facção e seus aliados.
Roberto Uchôa acrescentou que "há indícios" de que o Tren de Aragua viabilizar o uso de portos na Venezuela, por meio dos quais o PCC também dilui o despacho de cargas milionárias de drogas.
Metrópoles